ESG: o tripé de uma nova era na logística

ESG: o tripé de uma nova era na logística

Por Claudete Borges Ferreira, Gerente de Produtos da Atech

A nova face dos negócios tem uma sigla que se tornou recorrente no vocabulário de executivos, investidores e sociedade: ESG (Environmental, Social, Governance, ou Meio Ambiente, Social e Governança, na tradução livre). 

Trata-se da incorporação de boas práticas socioambientais e de governança na cultura corporativa, visando a perenidade dos negócios em sinergia com o bem-estar social e o compromisso do Brasil de se tornar uma nação net zero até 2050. Empresas de diversos segmentos precisam, mais do que nunca, fazer parte dessa agenda para validar que são sustentáveis, responsáveis socialmente e administradas de forma correta. Neste contexto, o setor de logística não poderia ficar de fora, haja vista que sua atividade é carbono intensiva. 

No Brasil, a logística apresenta uma alta dependência do transporte rodoviário, de baixa eficiência energética e que, quando usado para trajetos de longa distância, implica em maiores custos e maiores emissões de gases de efeito estufa. De acordo com dados do SEEG (Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa), divulgado em 2021 pelo Observatório do Clima, que todo ano calcula quanto o Brasil gerou de poluição climática, os dez municípios campeões de gases de efeito estufa (GEE) do Brasil emitem juntos 172 milhões de toneladas brutas de gás carbônico equivalente (CO2e). O setor de transportes é o principal fator de emissão nas grandes cidades. 

Segundo dados do relatório do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, na tradução para o português) sobre mitigação das mudanças climáticas, divulgado em abril deste ano, a projeção é que as emissões de CO2 do segmento de transporte aumentem 50% até 2050. 

Por isso, a harmonia de ESG com a logística é um fator imprescindível para evitar ainda mais impacto negativo sobre a gestão das empresas, afetando o rendimento das atividades de toda a cadeia logística. 

Logística reversa

A logística reversa é um conjunto de ações que visa o reaproveitamento de produtos por meio de reciclagem ou restauração de matéria-prima para retornar ao processo produtivo. A adoção de tais práticas pode agregar valor para a imagem da empresa, além de gerar vários benefícios para o meio ambiente, como reduzir o desperdício de insumos, evitar o descarte inadequado de resíduos que provoca contaminação de rios e, principalmente, minimizar a exploração de recursos naturais. 

A finalidade de aplicar esse conceito é criar um novo modelo de negócio que leve em consideração a redução dos impactos ambientais e sociais, aliado às questões econômicas. Vejo como uma medida necessária quem busca um diferencial competitivo em um mercado cada vez mais acirrado. Também é uma maneira de construir uma cadeia logística mais inteligente e consciente de suas responsabilidades, promovendo, assim, um melhor atendimento para clientes e maior proteção do meio ambiente. 

De olho no ecossistema

O termo ESG, como vimos, promove uma conscientização para a criação de mundo mais justo e sustentável. Mas como alavancar o engajamento das companhias se essas não olharem com atenção para os seus fornecedores? 

A pressão de assumir um compromisso público com agenda ESG exige uma abordagem integrada que contemple toda a cadeia logística, a fim de garantir a efetividade dos esforços em torno da causa. 

Um dos aspectos que chama atenção aqui é a importância de identificar e calcular as emissões de CO2 para além dos muros da organização. Dividindo os Escopos 1, 2 e 3, essa atividade é essencial para poder realizar a coleta das informações sobre emissões, que nem sempre estão estruturadas dentro da empresa, além de pressionar os seus fornecedores às exigências do mercado e da sociedade em relação ao seu impacto no meio ambiente. 

Na compra de matéria-prima, por exemplo, é importante que as organizações estejam atentas em relação à procedência de cada insumo. Além disso, outra dica é identificar se as empresas do ecossistema respeitam as legislações trabalhistas e tributárias vigentes no país.

Maior governança, menor impacto 

A vantagem de integrar a agenda ESG no planejamento estratégico da empresa é fundamental para que ela trabalhe bem os seus pontos fortes e vulnerabilidades. Porém, o sucesso de algumas empresas nesse processo esbarra na dificuldade de mensurar e analisar indicadores de impacto social e ambiental. Esse contexto, para evoluir, depende e muito de uma boa governança corporativa.  

As grandes companhias precisam contar com suporte de relatórios bem estruturados, que forneçam dados e controle sobre indicadores de sustentabilidade (emissões de CO2, consumo de energia, água, resíduos etc), além de sugerir acompanhamentos sobre planos de ações bem definidas e que visam a mitigação do seu impacto ambiental.   

Por fim, ao avaliar o impacto do ESG na logística, devemos repensar o negócio de forma macro, desde a compra de insumos, passando pela fabricação, distribuição e comercialização dos produtos. Cada uma dessas etapas possui riscos e pontos de atenção diferentes que precisam ser acompanhados de perto. A grande transformação provocada pelo tripé ESG não é apenas mudar a maneira de fazer negócio. É necessário gerar ganhos sociais e ambientais e só se consegue atingir esse patamar com atitude.  

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