Tag Carlos Netto

Open banking e a “guerra das contas”

Por Carlos Netto, CEO da Matera

Todos estão acompanhando a “guerra das maquininhas”. Isso não aconteceu por acaso. Um conjunto de regras criadas pelo regulador possibilitou o nascimento de vários concorrentes, levando à inevitável concorrência e consequente redução dos custos para os usuários. Estas regras foram alteradas anos atrás; demorou um pouco para observamos um grande impacto, mas este dia chegou.

Da mesma forma, começa agora um conjunto de alterações para o mercado bancário que pode, no limite, gerar também uma “guerra dos bancos” ou “guerra das contas”, dado que não é só banco que tem conta hoje em dia.

Vem aí o Open Banking! O titular de uma conta em uma instituição poderá compartilhar seus dados com outra. Vamos conseguir usar nosso banco via APIs, agregando valor sobre elas, assim como agregamos valor sobre um smartphone, criando aplicativos interessantes. Isso vai abrir espaço para empresas mais qualificadas no trato do consumidor assumirem esta relação diretamente, mesmo que o dinheiro do consumidor esteja em outro banco que ele confia mais. Da mesma forma que você compra uma pizza pelo Rappi ou iFood, que não fazem pizza, quem sabe vamos conseguir comprar um CDB através deles no futuro?

Os grandes bancos tinham que encontrar a inovação antes que os inovadores achassem a distribuição. Pois bem: quem é distribuição poderá atuar com produtos bancários mesmo sem ser banco. Talvez a “distribuição” tenha encontrado a inovação e não os inovadores tenham encontrado a distribuição. Os varejistas e todos detentores de transações terão um ambiente dos sonhos para inovar e embarcar as transações bancárias em suas transações.

Se os varejistas poderão trabalhar com produtos dos bancos, que tal os bancos trabalharem com varejo? Talvez não seja estranho eu ver um anúncio de um smartphone na TV e o app do meu banco perguntar “quer um por apenas R$ X?”. Se eu responder sim, pronto: o produto vai chegar em casa. Tudo isso pode ser feito pelo app do banco, que atuou, na prática, como um marketplace.

Da mesma forma, aplicativos que geram Qr Code para pagar não precisarão mais ficar reféns dos cartões de crédito e seus chargebacks por transações não presenciais. A wallet destes aplicativos poderá ter contas bancárias acessíveis via API, autorizadas pelo usuário do app que também é titular da conta. Os bancos podem simplesmente oferecer limite rotativo de crédito para estes aplicativos, fazendo que uma transação de pagamento móvel com Qr Code não possa ser paga pelo usuário só num dia do mês, como um cartão de crédito, mesmo com o lojista recebendo a vista. E tudo isso sem uma bandeira para viabilizar a conexão.

Para por aí? Não! Uma mudança tão grande como esta vai habilitar muitas inovações. Teremos um mar de possibilidades e pessoas criativas certamente vão criar aquilo que até então era impossível e que, na mente de muitos, vai continuar impossível pela força do hábito. O open banking vai mudar muita coisa e vai gerar muitas oportunidades para o mercado mudar, de novo.

Carlos Netto, CEO da Matera, empresa de tecnologia para os mercados financeiro, varejista e de riscos

Tags, , ,

Indo além da “página 2” da Transformação Digital

Por Carlos Netto, CEO da Matera

O termo “transformação digital” vem ganhando cada vez mais força mas, ainda, é uma grande incógnita para muitas empresas, que não entendem a importância do investimento e a abrangência das mudanças necessárias para trilhar este caminho. Por isso, vale a reflexão: mas, afinal, o que é transformação digital e o que ela traz de bom para as empresas?

Certas companhias ainda têm a rasa visão de que desenvolver um aplicativo móvel ou estar presente nas mídias sociais a torna “digital”. Entretanto, tal jornada é bem mais complexa do que isso, e exige mudanças dentro da corporação, que vão muito além da questão tecnológica. Transformação digital é uma revisão (ou reconstrução) do modelo de negócio atual, é abrir mão do DNA antigo e de estruturas engessadas e enxergar além. Só assim os executivos passarão a entender qual potencial que se têm em mãos e gerar, de fato, maior valor ao business. É preciso atingir os hábitos de consumo dos principais executivos da empresa para gerar essa mudança. Se eles não forem digitais, consequentemente a empresa também não será.

Só para entender esse enorme potencial, muitas empresas, que já nasceram com este “DNA digital”, valem, atualmente, mais do que o negócio original como é o caso, por exemplo, do PagSeguro, criado pelo UOL, e do PayPal, spin-off do eBay. Outras empresas também se encaixam nesse modelo, gerando conflitos com os incumbentes, organizações tradicionais engessadas, como é o caso de Uber x Cooperativas de Táxi, Netflix x TVs por assinatura e, inclusive, Nubank x Bancos convencionais.

No mercado financeiro, essa onda de transformação, na minha opinião, vem com a grande tendência das empresas que já possuem redes de distribuição bem estabelecidas, como as varejistas, criarem suas próprias fintechs. Diferentemente de uma startup, que precisa conquistar clientes para ter escala, várias empresas já possuem uma extensa carteira de clientes e só precisam da inclusão desses serviços em sua oferta para ampliarem ainda mais suas possibilidades de negócios.

Neste cenário, temos empresas com centenas de milhares de pontos de venda com os quais nos relacionamos toda semana. Se elas montam uma plataforma própria de contas digitais, direcionando todas as transações do ponto de venda para tais contas, temos como benefícios a redução dos custos de cobrança (fim dos intermediários de pagamento), a diminuição da inadimplência e, também, a possibilidade de oferecer crédito – e outros produtos financeiros – para sua base de clientes de forma mais competitiva do que os grandes bancos. Um bom exemplo de empresa que entendeu a real importância e se antecipou a este movimento foi o Grupo Martins, que vem implementando este modelo através do seu banco, o Tribanco, que agora oferece contas digitais para os consumidores da rede de supermercados parceiros.

Em geral, essas empresas, varejistas ou distribuidores em seu DNA, poderão aproximar os pequenos e médios bancos do mercado B2B ou B2C, ampliando muito a oferta de crédito e de outros produtos financeiros. Os bancos, por sua vez, vão continuar a oferecer produtos financeiros, mas muitos irão fazê-lo através de marketplaces não financeiros, que possuem relacionamento mais próximo como cliente final e possuem uma conta digital própria para liquidação das operações. Tudo indica que haverá uma guerra entre as “e-wallets universais”, como Apple Pay e Samsung Pay, associadas aos players tradicionais (emissores, adquirentes e bandeiras) e as “e-wallets proprietárias”, fornecidas por estes novos entrantes.

Em resumo, as “fintechs embarcadas”, que funcionam dentro de outras empresas, devem ser uma grande tendência nos varejistas, distribuidores, indústria de consumo e todos os outros grandes grupos econômicos que controlam muitas transações. Estes sim têm enorme potencial de brigar com os bancos. Como consequência, pode ser um período duro para as fintechs “puras”, que possivelmente serão vendidas ou deverão buscar estabelecer parcerias para acelerar o processo dos players que já controlam muitas transações. Claro que os grandes bancos, vendo este movimento como inevitável, podem se aliar com estas empresas e apoiar na criação das “fintechs embarcadas”, tendo no varejista um grande parceiro para seus produtos financeiros. Este movimento pode resultar em “guerra” ou em “parceria”. O futuro dirá!

Carlos Netto, CEO da Matera, empresa de tecnologia para os mercados financeiro, varejista e de riscos

Tags, , ,