Os caminhos para a desmaterialização dos serviços financeiros no Brasil

Os caminhos para a desmaterialização dos serviços financeiros no Brasil

Por Raul Moreira

Alguns dicionários definem o ato de se desmaterializar como sinônimo de algo que se desfaz ou se desintegra. Esta descrição poderia encaixar-se perfeitamente, em um futuro próximo, no que concerne ao ambiente de serviços financeiros tradicionais no Brasil. E isso tende a ser tão positivo que poderia culminar no grande salto evolutivo que ainda falta para promovermos a esperada inclusão financeira da nossa população e a definitiva digitalização do dinheiro no país.

Vivemos hoje um contexto no qual três forças estão convergindo, de forma positiva e simultânea, para essa transformação do setor financeiro: a disseminação de novas tecnologias; as mudanças no comportamento dos consumidores frente a um novo mundo digital; e a evolução do marco regulatório do segmento no país.

Essas três forças (tecnologia, comportamento e regulação) formam os alicerces das mudanças que começamos a viver com novos produtos e serviços como o PIX e o Open Banking. Ambos deram a largada para a construção daquilo que o próprio Banco Central do Brasil denomina como Sistema Financeiro Aberto.

Na essência, esse Sistema Financeiro Aberto entrega a sonhada liberdade aos consumidores. Isso porque trata-se de uma nova definição de padrões de troca de informações entre os participantes do sistema financeiro, a qual os dados e informações são de propriedade do cliente – e não mais da instituição financeira – e ele pode portá-las de forma totalmente digital de um concorrente para outro. O que representa um maior poder de escolha para os consumidores. Tudo isso, de forma totalmente digital e instantânea.

É nesse contexto que o PIX e o Open Banking se unem, se entrelaçam e até se confundem em um movimento tão profundo que culminará certamente na criação de novas soluções que permitirão saltos significativos na vida financeira dos brasileiros. São infraestruturas que estão sendo montadas para suportar novos métodos de pagamentos, formas de concessão de crédito, abertura de contas digitais de maneira totalmente intuitiva e instantânea, entre outras. O modelo tem como base um emaranhado de soluções e de plataformas que interligarão instituições financeiras, credenciadoras, fintechs, insurtechs, sociedades de crédito direto, sociedades de empréstimos entre pessoas, corretoras e demais participantes do ecossistema.

Em breve, veremos o PIX viabilizando uma série de inovações, tanto na “indústria” de meios de pagamentos como em outros mercados. Essa nova infraestrutura pode estimular a criação de soluções inéditas ou que venham atender as mais variadas demandas do mercado, tais como empréstimos entre pessoas, leilões virtuais, venda de microsseguros, um novo comércio digital, pagamentos de contas e impostos de forma instantânea, entre outros tantos serviços.

Essas novas tecnologias que começam a se popularizar não irão mais retroceder. Veremos cada vez mais o uso intensivo da inteligência artificial, soluções de biometria e autenticação digital, linguagens de desenvolvimento para plataformas móveis mais simples e acessíveis, padrões de integração baseados em APIs, redes móveis de alta velocidade, blockchain, internet das coisas, além de outras tantas tecnologias que permitem um amplo acesso de novos entrantes no mercado financeiro.

Tudo isso, se desmaterializando em soluções financeiras espalhadas nas mais diversas formas de interação entre consumidores, seja junto ao comércio, prestadores de serviços, indústria ou governo e tendo como ponto de contato múltiplas plataformas de redes sociais, aplicativos de mensagens, de entregas e até de transportes, bem como uma ampla diversidade de modalidades de empresas que estão iniciando a atuação no provimento de serviços financeiros. Estas últimas incluem, por exemplo, carteiras digitais; agregadores de contas; além de novos tipos de plataformas digitais de investimentos, empréstimos ou seguros.

Entre os beneficiados diretamente por todas essas evoluções estão os cerca de 45 milhões de brasileiros ainda não incluídos financeiramente, os mais de 30 milhões de trabalhadores autônomos, os mais de 11 milhões de microempreendedores MEI e outros públicos tão importantes para o desenvolvimento econômico do país.

Por isso, não vejo mais sentido em falarmos de bancarização como um sinônimo de abertura de uma conta em um banco. Seria mais prudente focarmos no conceito de “inclusão financeira” da população, movimento que poderá acontecer a partir de vários instrumentos e participantes do sistema financeiro, desde que autorizados pelo regulador.

Logicamente o sucesso de todas essas mudanças dependerá também do engajamento das atuais instituições participantes, muitas delas grandes bancos e emissores de cartões. Mas, ao que tudo indica, tanto os players já estabelecidos quanto os entrantes já demonstraram forte interesse por essa nova dinâmica competitiva.

Independentemente da obrigatoriedade de disponibilização do PIX e do Open Banking, existe um entendimento do mercado de que a adaptação ao novo contexto regulatório e a consequente transformação digital são temas já profundamente inseridos nas agendas estratégicas de todos os competidores.

Enfim, mesmo com todos os esforços necessários para educação dos usuários e os investimentos para a criação e disseminação de novos produtos e serviços que serão criados a partir da implementação do PIX e do Open Banking, as expectativas são de que esse novo ambiente provoque mudanças significativas em médio e longo prazos na forma como os brasileiros lidam com o dinheiro.

O consumidor do futuro não terá mais de “acessar o seu banco” e sim o seu “banco” – que nem banco precisará ser – estará universalizado, disseminado, inserido e até “desmaterializado” em todas as formas de contato e relacionamento utilizadas por esse novo consumidor no seu dia-a-dia.

Raul Moreira, membro do Conselho de Administração do Banco Original e Coordenador do Comitê de Inovação do Original

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