ESG: como criar projetos de infraestrutura e de construção civil sustentáveis?

ESG: como criar projetos de infraestrutura e de construção civil sustentáveis?

Por Filipe Monteiro, gerente na ICTS Protiviti

No contexto do ano de 2021, a sociedade irá se reconstruir por meio da vacina contra a Covid-19 e da recuperação econômica global. Para tanto, é inevitável pensarmos em infraestrutura, setor atrelado à retomada econômica e com muita conexão aos novos bordões ESG (Ambiental, Social e Governança, em português).

Essa sigla deverá ditar o ritmo da economia nesta década e os termos sustentabilidade e infraestrutura estão intimamente interligados de duas formas: o impacto que a infraestrutura causa ou pode deixar de causar no meio ambiente e na sociedade e o impacto que o meio ambiente e a sociedade causam ou vão causar neste setor ao longo dos próximos anos. Seja em qual dos dois cenários desejamos analisar primeiro, os resultados são alarmantes.

Podemos começar pela análise do impacto que a infraestrutura causa no meio ambiente e na sociedade. Quando pensamos na cadeia de valor do setor de construção, temos:

– Emissões de gases do efeito estufa: o cimento é o principal responsável por emissões significativas de CO2. Apesar do ganho de eficiência nos últimos anos, reduzindo as emissões por tonelada de material produzido, o provável aumento na demanda do cimento volta a acender o alerta nesta questão.

– Gestão de resíduos: as taxas de reciclagem na produção dos materiais de construção são relativamente altas, entretanto os resíduos na cadeia de produção, a poluição atmosférica e a produção de resíduos perigosos, como a poeira de cimento, continuam sendo um alerta.

– Impactos na biodiversidade: a produção dos materiais de construção normalmente é atrelada a atividades de mineração que requerem remoção do solo e da vegetação, além de detonações de rochas, impactando, inevitavelmente, a biodiversidade no local onde operam.

– Saúde e segurança dos trabalhadores: acidentes, doenças e fatalidades são a consequência dessa atividade, que lida com maquinário pesado, explosões e exposição a resíduos perigosos, como a sílica.

– Integridade e transparência: esse setor tem enfrentado alguns episódios de comportamento anticompetitivo (como cartel), além de corrupção e suborno.

Esses são alguns exemplos, fora o impacto de uma grande construção no dia a dia da comunidade durante e após a construção, além de questões como as condições adequadas de trabalho em quarteirizações.

Na outra ponta, é possível ilustrar diversos exemplos de como a sociedade e o meio ambiente podem impactar diretamente neste setor, como as greves e manifestações populares contra algum empreendimento que, se não tratados de forma adequada, podem embargar a obra e inviabilizá-la. Ainda temos as questões de licenças ambientais e impactos de cunho climático, que podem embargar uma obra ou terem uma “debandada” de investidores cada vez mais atentos às questões ESG.

Uma saída pode ser a infraestrutura sustentável, que pode aliar as inovações tecnológicas com menor impacto ao meio ambiente e, consequentemente, ter um custo e oferta de capital maiores no mercado. A infraestrutura é um dos setores que mais contribuem para questões relacionadas às mudanças climáticas e, desta forma, pensar fora da caixa e trazer soluções sustentáveis pode ser um grande chamariz para investidores. Neste contexto, para a obtenção de uma infraestrutura sustentável, é necessário o alcance das seis qualidades, tais como:

• Benefícios compartilhados: aumentar o acesso a serviços essenciais (água, esgoto, transporte e, energia) e endereçar a desigualdade e injustiça.

• Resiliência ambiental: desenvolver responsabilidade ambiental e resiliência a mudanças climáticas, como projetos circulares, corte de gases de efeito estufa, resiliência a desastres ambientais etc

• Aceitabilidade social: engajar todos os stakeholders para respeitar a acessibilidade e sensibilidades locais, garantindo a integração de todos os envolvidos.

• Efetividade econômica e institucional: garantir a efetividade econômica, a transparência e a capacidade construtiva com projetos que possuam bom custo-benefício, sustentabilidade fiscal e transparência.

• Garantia de futuro: realizar o planejamento para a manutenção do ciclo e fim de vida dos ativos, considerando riscos disruptivos, oportunidades tecnológicas e inovação no modelo de negócios.

• Potencial de massa crítica: promover o planejamento estratégico, a replicabilidade de projetos e a escalabilidade financeira para garantir a elegibilidade a financiamentos.

Na prática, quando essas seis qualidades forem adotadas em todas as obras de infraestrutura, começaremos a ver um mundo remodelado e preparado para toda mudança que ainda teremos pela frente. Sem dúvidas, o setor de infraestrutura e, em especial, o da construção civil tem um importante papel a desempenhar para mitigarmos os impactos de uma alteração climática severa. O mercado de capitais está em busca de oportunidades relacionadas a temática de infraestrutura sustentável, seja pela demanda represada e futura, seja pelo potencial de geração de valor. Então “mãos à obra”!

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