Aviões: o querosene mais caro do mundo

Política de preços equivocada ou ausência de transparência da Petrobras. Qualquer que seja a resposta, o fato é que a compra do querosene de aviação no Brasil pelas companhias aéreas gera um custo adicional de 28% em relação aos valores do mesmo combustível no mercado internacional. Não é pouco. Só em 2012 essa diferença representou mais de US$ 1 bilhão em gastos desnecessários, mas refletidos no preço das passagens.

“Entre os países em crescimento, o Brasil é o menos competitivo em custos do querosene de aviação”, afirma Tony Tyler, Diretor Geral da IATA (International Air Transport Association). Ele revela que o combustível no Brasil representa 43% do custo das companhias aéreas, contra uma média internacional de 33%. O executivo conclui: “Infelizmente, muitas vezes a política de preços dos governos atrapalha. No caso brasileiro, a paridade dos preços associados aos custos de importação resulta em imensa distorção do mercado”.

Tyler dá um tiro no que viu e acerta o que não viu. Até seria plausível imaginar que a oneração do preço médio do litro no país (R$2,25) em relação a Houston (R$1,76, tabela PLATTS) é provocada pela importação do produto. Mas não é o que acontece. Quase 75% dos mais de 7 bilhões de litros de querosene de aviação consumidos aqui são produzidos pela Petrobras. Sequer dá para acusar o transporte interno, pois 80% do combustível utilizado nos aeroportos de São Paulo, onde se concentra a maior parte tráfego aéreo, vem de São José dos Campos, a 100 quilômetros.

Duas notícias recentes demonstram as consequências dessa política danosa. A primeira é que depois de dez anos houve inversão nas tendências, e de acordo com estudo do jornal O Estado de S. Paulo, no primeiro trimestre de 2012 o número de passageiros que voltou a tomar ônibus de longa distância aumentou 2,58% em relação a 2012. Trazendo prejuízo à conquista social, os voos domésticos caíram 0,20%. A situação tende a piorar.

Já a segunda notícia é a redução pelas aéreas dos assentos disponíveis, para contornar o custo do combustível. Com menos aviões no ar, pode até parecer que a taxa de ocupação melhorou, mas todos perderam. Além das demissões na indústria, que já começaram, o consumidor viu suas opções encolherem. E, diante da menor oferta, os preços das passagens sobe.
Diante disso, a coluna fez cinco perguntas à Petrobras: por que o preço do querosene de aviação no país é mais caro; como é composto; se este valor subsidia a gasolina e o óleo diesel; qual a produção nacional e importada; o que impede o país de produzir 100% do produto. A resposta da empresa, depois de insistentes contatos, foi lacônica e imprecisa: “Os preços de QAV praticados pela Petrobras têm sua formação baseada em parâmetros de mercado internacional”.

Má comunicação à parte, pelo visto a empresa controlada pelo governo ainda considera avião coisa de elite. “É preciso rever essa política discriminatória de preços, porque hoje a aviação se tornou transporte de massa”, conclui Adalberto Febeliano, consultor técnico da ABEAR, associação das empresas aéreas brasileiras.
Há mais a comentar, como a questão do ICMS. Mas fica para outra coluna.

Passageiro Vip: Gabriela Otto
Nascida em Porto Alegre, de onde saiu aos 25 anos, Gabriela é formada em Comunicação e tem pós-graduação em Vendas e Marketing. Começou uma carreira de 20 anos na hotelaria na Rede Plaza, onde foi Relações Públicas. Seguiram-se o Caesar Park, InterContinental e Sofitel, neste último ocupando a diretoria regional de vendas para América Latina.

Desde 2006, ela dá aulas em diversas instituições de ensino ligadas a turismo e hotelaria. Também escreve para publicações do trade. Já morou no Rio, São Paulo e Sidney (Austrália).

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